A espera

Sao-Jorge

São Jorge – Artista: Uchôa

menina distante no terreiro
vendo as estrelas no céu
esperando um amor verdadeiro

cachorro correndo no quintal
o peito ardendo em chamas
traço fininho de lua, sem sinal

besouro arteiro cruzando o ar
fugindo, fingindo, zunindo
se exibindo aos que não sabem voar

estrela cadente que não vem
espera seu riscar de luz
um pedido, um certo alguém

à lua faz seu apelo
você aí, São Jorge
uma mãozinha, um conselho

corra com seu cavalo branco
traga aqui quem desejo tanto
se quiser, deixe vivo o dragão
vá, enquanto vive a paixão

Adriano Yamamoto (Data: 22/04/2013)

Farol

amanhecer-dia
farol incandescente
sopro de brisa
posso sentir na mente
nuvem no céu avisa
chuva pra quem tem
esperança pra quem é
sonha com coração além
de onde pisa o pé
traço de criança
nas montanhas de Minas
brilho pra quem alcança
a delicadeza das meninas

coração pra amar
vontade pra querer
vento pra soprar
farol pra amanhecer

Adriano Yamamoto (Data: 29/04/2013)

Lógica do inverso

Fotografia: Layana Leonardo

Fotografia: Layana Leonardo

enquanto você fica aí sentado
vendo o mundo através das lentes
dos seus óculos vermelhos

o mundo gira veloz e obstinado
indiferente a quem está sentado
seguindo a lógica do inverso
singular pra quem é diverso

caótico pra quem é sistemático
gentil pra quem é antipático
sem reservas nem lugar marcado
entre, faça sem ser convidado

pegue à força, no laço
se escapar, use os dentes
arranque ao menos um pedaço

mas não gire em sentido horário
vá sempre no sentido contrário
não deixe fugir do corpo a alma
caso não se encontre, muita calma

use seus óculos vermelhos
mas arranque as lentes,
e imediatamente, se olhe no espelho

se mesmo assim não se enxergar
use um martelo, mire no acetato
bata até quebrar

Adriano Yamamoto (Data: 31/05/2013)

Universo em confusão

coracao-no-varal
representar nunca foi o seu forte
abre logo ao meio, faz um corte
faísca no chão à fio de argumento
trovoada, inundação de sentimento

memória olfativa, audição eclética
seletiva, mas que se dane a estética!
samba, balança, batuca na mesa do bar
num piscar de olhos, desce do céu ao mar

clips, caderno, caneta, sapato, cd
coleção transbordando a casa, pode crer!
universo de idéias, manias e pessoas
instruídos, deselegantes, ateus e à toas

briga, diz que se sente abandonada
pede divorcio no meio da madrugada
pela manhã acorda calma e serena
alma grande, embalagem pequena

amor que salta do mais alto prédio
temperamento sem cura nem remédio
posa de Davi enfrentando o gigante
delicadeza de mulher, fina, elegante

Adriano Yamamoto – 22/05/2013

(Dedicado à minha esposa Luciane Yamamoto)

Alma ao vento

ao-vento
Mais vale um devaneio jogado ao vento do que o mecânico pensar.
E muito mais a subversão das idéias
do que a obediência cega que anula a dúvida e reforça os muros da submissão.
Vale mais um breve momento onde a alma é livre para ser,
do que a eternidade de uma vida vazia que se vai no estalar dos dedos de uma criança.

Adriano Yamamoto (Março – 2012)

 

À seco

a seco
peço as pedras que gritem,
mandem seu recado
sem holofotes, enfeites,
nada muito requintado

peço à natureza que diga
nas folhas e nos corais
algo sobre Ti
porque o homem não pode mais

nas ruínas,
nos templos históricos
as palavras perdidas,
os ditos apostólicos

nesse mar de ritos e estágios
peço ao profeta que divida as águas
quero passar à seco, sem pedágios

com quantas pedras se faz uma crença?
com a mente atada, é possível que se vença?
com quantas mentiras se decide o que é permitido?
com quantos pecados se faz um homem perdido?

nessa manhã intenções sutis
que o criador nos perdoe
nos livre dos lobos, dos homens vis
e desse que sou, que mora dentro de mim
entregue às banalidades da vida
de egoísmo e erros sem fim

Adriano Yamamoto (Data: 01/04/2013)

Academia do absurdo

absurdo

Se telefone é combatível ou combatente
Me desculpe amigo, mas infelizmente
não posso opinar sobre essa questão
Sou formado em ufologia
com ênfase em astrologia do sertão

se papel aceita tudo
e boca fala o que quer
sou da academia do absurdo
dono de uma teoria qualquer

se CEP quer dizer cidade, estado e país
não posso afirmar, pergunte ao sr. juiz
já ouvi algo sobre endereçamento postal
mas não importa, por bem ou por mal
que ele que decida o que é justo, afinal

se papel aceita tudo
e boca fala o que quer
a academia do absurdo
tem pensador, doutor e mané

Se Jesus nasceu no Pará ou na Galiléia
Me desculpe amigo, mas não faço idéia
Sei que tourada é coisa da Espanha,
no Pará se fala brasileiro
e o povo nem hebraico arranha.

se papel aceita tudo
e boca fala o que quer
o pedantismo está à solta
digo e repito o que quiser

Entendeu, amigo?
Nem eu!

Adriano Yamamoto (Data: aproximadamente Julho de 2012)
* Inspirado num diálogo engraçadíssimo entre dois ex-colegas de trabalho.

Calango desiludido

(Imagem: Patricia Russano Cuyumjian - Fonte: Flickr)

(Imagem: Patricia Russano Cuyumjian – Fonte: Flickr)

Eita calango aventureiro!
Das estilingadas à tarde, foge ligeiro
com o sol a tostar os pés
procura no sertão, o rio, o mar, as marés
só o que come é a poeira das estradas daqui
à noite sonha com cajá, umbu, goiaba, pequi
– o que cria nessa terra seca, seu moço, é só lamento!
– os bichos magros, o povo indo embora de tanto sofrimento

Eita calango inocente!
ficou imaginando como seria o velho chico passando bem em sua frente
ouviu isso do marvado Zé que falava afirmando com toda certeza:
–  Vai passar! Vai passar, numa grande correnteza!
De tanto ser enganado, o bicho perdeu a esperança
agora só observa ao redor, guardando tudo na lembrança
a vaquinha magra, os meninos de pé no chão, a plantação miúda
já que os poderosos não se importam, à Deus do céu pede ajuda

Eita calango desiludido!
Agora não vê mais beleza nas coisas, já está tudo perdido
alegria nessa terra esquecida, vê mais nem pequena semente
fica matutando dia e noite:
– Eita bicho maldoso essa tal de gente,
promete coisa que não vai cumprir,
engana o povo simples e depois ri.
– já vi sujeito traiçoeiro nessas minhas andança
mas nenhuma espécie que faça toda essa matança!

Adriano Yamamoto (Data: 04/12/2012)

De acordo com estatísticas da ONU, o nordeste brasileiro enfrenta em 2013 a maior seca dos últimos 50 anos, com mais de 1.400 municípios afetados. A seca deste ano já é pior do que a do ano passado, também recorde. Essa realidade, no entanto, não é isolada. A previsão das Nações Unidas é de que até 2030 quase metade da população mundial estará vivendo em áreas com grande escassez de água.

http://www.onu.org.br/pior-seca-dos-ultimos-50-anos-no-nordeste-brasileiro-confirma-estatisticas-da-onu-sobre-escassez/

Amores avassaladores

Abandonada

Nos cabelos daquela mulata
um desejo escondido
em seus lábios ardentes
se perdeu João, iludido
chapéu de couro, boiadeiro
na poeira daquela estrada
se entregou por inteiro
na pele suave da negra flor
nos lábios, nas pernas
as delicias do amor

amores avassaladores
vem e vão, deixam dores
desbotam-se as cores
paixões, loucuras, amores

nos olhos do jovem rapaz
se apaixonou Maria
doce menina, pequena flor
de tanto amor, tudo faria
só as estrelas olharam
o céu aberto, se amaram
vento veio de madrugada
foi-se embora numa jangada
na beira do porto,
pétalas no chão, abandonada

amores avassaladores
vem e vão, deixam dores
desbotam-se as cores
paixões, loucuras, amores

Adriano Yamamoto (28/01/2013)

Cidade de concreto

cidade-de-concreto

a ninguém posso culpar
por ter feito as malas
e vindo parar nesse lugar
ao menos devia ter pensado
um requeijão, um kilo de andu,
meia dúzia pequi comprado

devia ter ido ao rio me despedir
coração ficou enterrado na areia
como piaba no anzol a sacudir
antes que o sol beba o rio
seque o abacateiro
e a alma aqui, morra de frio

pegarei a estrada de volta
no bolso poucas moedas
mas agora, nada disso importa
na mala velha, os sonhos guardados
tantos anos na lida e nada realizado
o mal de cada dia, a alma atormentada
o cheiro de fumaça, a rua engarrafada

no calor da juventude, me achava esperto
pé na estrada num dia de sol
multidão, carros, cidade de concreto
peço a Deus que a alma reverdeça
quero os amigos de volta
e que de tudo isso me esqueça

quero os versos de um poeta
o sol nascendo de manhãzinha
na cadência onde a alma se aquieta
nada quero o que dinheiro compre
nem casa, nem boi
apenas um lugar onde me encontre

Adriano Yamamoto (Data: 21/02/2013)