Quem foi?

negra
quem foi que enrolou
o cabelo da menina?
redondinho desenhou
no cabelo da menina?

quem foi que coloriu
o tom da sua pele?
de marrom toda cobriu
esse tom da sua pele?

quem foi que balançou
o gingado da mulata?
que ao samba enfeitou
com o gingado da mulata?

quem foi que trouxe?
foi o barco, foi o mar
diga logo ao navegante
quero voltar pro meu lugar

essa terra não é minha
não se pode esperar
que tão longe lá de casa
possa eu aqui morar

Adriano Yamamoto (Data: 19/07/2013)

Sociedade dos inventos

engrenagem
No princípio, tudo era sem roda
sem movimento, fadado ao invento
lâmpadas, construções, teorias
projetos, idéias ao relento

ao nascer do sol, logo cedo
bandos formados, mutirão
átomos, plástico, levedo
tudo misturado, grande explosão

Um belo dia, você acorda
até discorda, mas se associa
compra geladeira, roupas da moda
muitos cavalos, importado na rodovia

uma avalanche morro abaixo
comercializando tudo pela frente
arte, letra, peixe, riacho
até remédio pra ficar contente

Desligo a TV, aperto o interruptor
Meu Deus! Acaba de amanhecer
Me olho no espelho, que horror!
sigo pro trabalho, volto ao anoitecer

cruzo a cidade, entro na empresa
Sou insubstituível, tenho certeza
automatizaram meu trabalho, que estranho…
volto pra casa, leio o jornal, tomo um banho

No outro dia, faço tudo novamente
acordo, como um pão amarrotado
pego o celular, escova de dente
piso fundo, estou atrasado

em frente ao trabalho, meu Deus!
um aviso em letras garrafais
De Gênesis ao livro de São Mateus
nunca vi palavras tais

Dizia assim:
“revisando nossas planilhas de custo
analisamos seu salário, que susto!
Percebemos através de uma nova tendência
Teremos mais resultados com a sua ausência”

Volto pra casa desesperado
atravesso a rua devagar
tomo algo, fico anestesiado
procuro meu espaço,
não tenho mais lugar

Adriano Yamamoto (Data: 04/07/2013)

Traiçoeiro

Xilogravura-Nordestina

Xilogravura nordestina

o amor é bicho traiçoeiro
ele te atrai, te distrai
te dá um tiro certeiro
arranca da paz um pedaço
no requebrar da morena
pega o sujeito no laço

nega, não aguento mais
criei coragem
vou falar com seus pais
põe aquele vestido de renda
tô sem nada no bolso
espero que você entenda

Adriano Yamamoto (Data: 22/04/2013)

Degradês

(Zumbi dos Palmares - Fonte: Wikimedia Foundations / Reprodução)

(Zumbi dos Palmares – Fonte: Wikimedia Foundations / Reprodução)

Esse canto, esse coro
De muito longe vem esse choro
Pérolas negras riscando o mar
Tambores, guias
Deuses a clamar

A escuridão da noite marcou o porto
O sol se refugiou cedo, quase morto
No toque do atabaque
Um golpe certeiro
Correntes nos pés
Navio negreiro

Sopro de vela
Mergulhos ao mar
Vento na vela
Navegar

Corpos sem alma
Fundo do mar
A noite revela
Ancorar

Nuances de melanina
Brancos tons
Meninos degradê
Ecléticos sons
Raízes de um país de origens mil
Sob o sol da Bahia, Brasil

(Adriano Yamamoto – 28/05/2013)