Sonho Molhado

(Fotografia: Fabiano Lopes)

(Fotografia: Fabiano Lopes)

O menino olhou pro céu!
Viu a chuva caindo!
Era sonho…
Mania de vê água até dormindo
1Represa que tirou o povo do vilarejo
Gente que tentava a sorte ali, o sertanejo
Num lugar de povo simples e pele queimada
Água não sobra nem pra ver plantação molhada
Nosso sertão mineiro de tanto calor
– Abre a torneira 2Hermínio! vê se a água voltou…
Barrajona que tinha água até transbordar
Derramava dentro do rio pros muleques nadar
Alforria de piaba era a represa atravessar
Passava por cima da ribanceira até no rio chegar
Nadava ligeiro descendo 4rio Gorutuba abaixo
Água branca de sabão das 5lavadeiras no riacho
Desviava no caminho de sapo, cobra e taboa
Fugia do 6gorutubano a pescar em sua canoa
Nessa terra, antes de nuvem carregada chegar
O sol na travessia do norte mineiro vem dela judiá

(Adriano Yamamoto – 04/01/2013)

Este poema é dedicado à cidade de Janaúba, que apesar que não ser o meu local de nascimento é a cidade que abrigou minha infância e adolescência e ao povo gorutubano, povo simples, de uma riqueza cultural incrível. Segundo Filho(2008), é um comunidade formada por quilombolas que vive no vale do Gorutuba desde o século XVII, vitimada por um brutal processo de expropriação territorial e de direitos deflagrados no século XX, mais precisamente nos anos 50, e intensificado com a chegada da SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, a partir da década de 70.

1  Segundo Filho(2008), a privatização das águas do rio Gorutuba, corresponde à construção da Barragem do Bico da Pedra, na década de 1970, e a utilização dos recursos hídricos locais predominantemente na fruticultura irrigada para fins de exportação, deixando as comunidades sem acesso à água rio abaixo.

 2 (in memorian) Meu avô Hermínio Alves dos Santos. Natural do Rio Grande do Norte. Viveu até os seus cem anos em Janaúba/MG

 4 Nasce no município de Francisco Sá (Minas Gerais) e percorre o município de Janaúba, banhando a cidade no sentido sul-norte. Faz divisa com os municípios de Riacho dos MachadosPorteirinha e Nova Porteirinha à leste.

 5 Lavadeiras que até hoje ganham o sustento lavando roupas para outras famílias às margens do rios Gorutuba e Copo Sujo.

 6 Gorutubano é relativo a quem nasceu às margens do Rio Gorutuba, mas, historicamente, remonta aos primeiros moradores da cidade, um povo negro, que veio fugido do sul da Bahia e, bem ali, no Vale do Gorutuba, construiu suas “taperas” e suas famílias, muitas dessas, surgidas do casamento com índios Tapuias.

 

Fontes:

Filho, Aderval Costa – Os Gurutubanos: territorialização, produção e sociabilidade em um quilombo do centro norte mineiro.  Disponível em http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/1509/1/2008_AdervalCostaFilho.pdf?origin=publicationDetail

http://www.camarajanauba.mg.gov.br/pagina.php?conteudo=VZlSXRlVOFmYGpEWPdFdXVWRWZVVB1TP

http://gorutubanos.wix.com/site#!gorutubanos/c22j5

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20 opiniões sobre “Sonho Molhado

  1. Ótima a sua poema Adriano, e cheio de cultura.
    Eu não sabia que você era do sertão mineiro. Eu sempre achei que foi criado em São Paulo. Não sei porque eu achei isso.
    Ontem a noite eu postei a poema que foi inspirada de sua poema sobre os aves e a corre corre da vida moderna.
    Abraços
    Staci

    • Olá Staci. Na verdade eu nasci em São Paulo e fui pro norte de Minas aos três anos de idade. Talvez por isso você tenha confundido. Mas sou sertanejo de coração! Acho importante divulgar a cultura, a beleza e os problemas sociais de lugares tão negligenciados pela mídia e pelo poder público. Fico muito feliz que você tenha gostado. Ah… vou lá ler agora mesmo o poema que você postou! Grande abraço e parabéns ao Daniel pela entrevista sobre o filme. Gostei muito.

    • Olá Roseli. É muito bom saber que consegui transmitir essas cenas que você enxergou. Fico muito feliz com o seu comentário, é sinal de que essa cidadezinha e sua história chegou ao imaginário de alguém tão longe.
      Um grande abraço!

  2. Ei meu camarada! Que delícia de se ler!
    Ôs óio inté aguô.
    Adorei a pesquisa que você fez. Como achou essa pesquisa sobre os gorutubanos!? Será que é gente de lá?
    Vou ler depois.
    E esse poema é o sentimento de quem tem o coração naquele lugar maravilhoso.
    Abraço procê e pra Lu.

    • “Ôs óio inté aguô” foi boa! Achei que tava no dialeto dos quilombolas que deram origem à cidade! (risos)
      Pois é, fiquei muito feliz quando encontrei a pesquisa de um doutorando lá da Universidade de Brasília. Não sei se ele é de lá, mas vale muito a pena ler. Dê uma olhada no link das referências no fim do poema. Uma história que não aprendemos na escola, ou seja, estudamos por um tempo em Janaúba e não sabemos da história da própria cidade.
      A fotografia é do Fabiano Lopes, ele participou do projeto do documentário “Gorutubanos”, que é um documentário sobre Janaúba. Se não me engano o Fabiano é de Montes Claros.
      Obrigado por ler, comentar e compartilhar!
      Um grande abraço gorutubano!

  3. Cresci as margens do rio Gorutuba onde me diverti com muitos amigos de infância em um tempo em que ainda havia muita água e peixes para preparar um bom mexido com berduegua¹. Época boa, subia o morro antes de existir a ponte e vislumbrava a lua de dentro d’agua com meus afazeres a cumprir. Tempo baum que não volta mais, mas minha mama ainda faz os caminhos das lavadeiras do rio Gorutuba.

    Belas palavras Japa, mais uma vez me surpreendendo com seus poemas.

    Abraços do brother aqui e apareça em breve para degustar o biscoito de queijo e um cravim.

    (¹) Berduégua (beldroega) – planta silvestre rasteira que o sertanejo emprega como alimento
    Fonte: http://www.dno.com.br/jornal969.htm

    • Fala aí, meu amigo!
      Precisamos conversar mais sobre essas suas vivências aí às margens do Gorutuba. É sempre bom escrever tendo como matéria prima as histórias de quem experimentou esse lugar. Vai lembrando, que em Junho tô aí pra tomarmos um cravinho, comer um biscoito de queijo e trocar umas idéias. Um grande abraço!

  4. Uau, este não tinha visto… deu vontade de nadar! Consigo até ver o lugar que detalhou. Não fez uma poesia, fez uma pintura Adriano, parabéns!

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