Flor do riacho

(J. Borges)

Flor do riacho
Água de rio vem banhar
Não tem bicho, nem tem macho
Que arranca ela de lá

Não conhece riqueza
Flor é simples de se vê
E só brilho, só beleza
Não tem laço de buquê

Raio de sol já judiou
Bicho homem veio olhar
Pé de passarinho só pisou
Flor só faz desabrochar

Riacho foi embora
Chuva não passou por lá
Sumiu sertão a fora
Desiludido a caminhar

Grilo, seca enfrentou
Dia e noite a cantar
Canto não adiantou
Flor no chão a definhar

Riozinho volta aqui!
Flor não pára de clamar
Não tem chuva pra cair
Não tem água pra molhar

Rio voltou correndo
Viu o vento a sussurrar
Flor tava morrendo
Não podia acreditar

Chorou arrependido
Fez promessa de ficar
Ouviu flor o pedido
Voltou a respirar

Água de rio
Pôs Deus nesse lugar
Sol que queima sem pavio
Manda chuva pra molhar

Adriano Yamamoto

 

Dissonante

cranio
Risco enigmas no papel
Um traço, um laço
Pequena vogal, um chapéu

Labirinto inconstante
Me desespero, espero
Estranha consoante

Soa nas entranhas
Tão dissonante
Com sílabas me arranhas

Seus significados aparentes
Não há quem decifre
O mapa da sua mente

Entre pontos e acentos
Tantos contrapontos
Vencido me assento

Tantos significados
Por favor, pare a frase
Quero uma paráfrase
Com ditos explicados

Traga-me letras picantes
Tostadas na brasa
Alguém que encante
Decole sem asas

Adriano Yamamot (Data: 12/09/2013)