Rochas cores

Fotografia de Laís Schulz

(Fotografia de Laís Schulz)

Tantas Claras, Laras
Rosas e Marias
No princípio, taras
doces iguarias
No fim, dores
rochas cores

Em seus muitos amores
Julianas e Robertas
Vermelhas cores
feridas abertas
Um sussurro triste
e ela insiste

Nem a morte assombra
essas doces Joanas
Entre alegrias e desgostos
Traz a marca no rosto
Solitárias na noite
o amor e açoite

Vermelho de maçã
bem no espelho
Logo de manhã
a cor de romã
No peito, deleito
a cor do batom
Em áspero tom

Adriano Yamamoto (Data: 07/08/2013)

Prumo

prumo-folhas

é nessa hora que vida vem cobrar
sem patente ou estirpe, sem privilégios a dar
é onde se encontram todos os visitantes
sem classe, mendigos, anônimos e importantes
o inevitável destino, o fim de animais e humanos
paulistas, belo horizontinos, cariocas e baianos
o fim da linha, passagem para o além, ceticismo de ateu
dançou o agiota, o crediário, o que se emprestou ou vendeu

é nessa hora que vida vem cobrar
por gentileza, sorte ou mero azar
o duro ou quem tudo na vida conquistou
quem por força maior, menor, a rua atravessou
o espetáculo deste palco tem sempre hora pra acabar
as cortinas se fecham, último episódio a recordar
o dia derradeiro, nem o empresário, nem o pedinte
o último suspiro, será no dia seguinte?

é nessa hora que o fôlego vem faltar
na saúde pública, na hora de se aposentar
todos se igualam pela limitação da existência
nossa vida frágil atropelada pela violência
morte súbita, matada ou morrida, passional
bala perdida, tiroteio, avançou o sinal
o bom cidadão, o inocente, o culpado, o criminoso
o dono da padaria, o motorista, o religioso

Adriano Yamamoto (Data: 08/01/2013)

Ausência

retrato-preto-branco
Com areia,
logo se ergue
um redemoinho no quintal
e tudo que ao vento segue
Mas sossegue, não faz mal
o fio que tece a razão
sufoca um amor irreal

Rói aos poucos, faminta
Mesmo que minta
e não sinta mais
Sem sinais, pressinta
o meu olhar, nunca mais

A tua ausência arde
Por uma foto antiga
o coração insensato bate
e não há quem diga
nem linha que arremate
Se debate sem medida

Adriano Yamamoto (2013)

Quem foi?

negra
quem foi que enrolou
o cabelo da menina?
redondinho desenhou
no cabelo da menina?

quem foi que coloriu
o tom da sua pele?
de marrom toda cobriu
esse tom da sua pele?

quem foi que balançou
o gingado da mulata?
que ao samba enfeitou
com o gingado da mulata?

quem foi que trouxe?
foi o barco, foi o mar
diga logo ao navegante
quero voltar pro meu lugar

essa terra não é minha
não se pode esperar
que tão longe lá de casa
possa eu aqui morar

Adriano Yamamoto (Data: 19/07/2013)

Sociedade dos inventos

engrenagem
No princípio, tudo era sem roda
sem movimento, fadado ao invento
lâmpadas, construções, teorias
projetos, idéias ao relento

ao nascer do sol, logo cedo
bandos formados, mutirão
átomos, plástico, levedo
tudo misturado, grande explosão

Um belo dia, você acorda
até discorda, mas se associa
compra geladeira, roupas da moda
muitos cavalos, importado na rodovia

uma avalanche morro abaixo
comercializando tudo pela frente
arte, letra, peixe, riacho
até remédio pra ficar contente

Desligo a TV, aperto o interruptor
Meu Deus! Acaba de amanhecer
Me olho no espelho, que horror!
sigo pro trabalho, volto ao anoitecer

cruzo a cidade, entro na empresa
Sou insubstituível, tenho certeza
automatizaram meu trabalho, que estranho…
volto pra casa, leio o jornal, tomo um banho

No outro dia, faço tudo novamente
acordo, como um pão amarrotado
pego o celular, escova de dente
piso fundo, estou atrasado

em frente ao trabalho, meu Deus!
um aviso em letras garrafais
De Gênesis ao livro de São Mateus
nunca vi palavras tais

Dizia assim:
“revisando nossas planilhas de custo
analisamos seu salário, que susto!
Percebemos através de uma nova tendência
Teremos mais resultados com a sua ausência”

Volto pra casa desesperado
atravesso a rua devagar
tomo algo, fico anestesiado
procuro meu espaço,
não tenho mais lugar

Adriano Yamamoto (Data: 04/07/2013)

Traiçoeiro

Xilogravura-Nordestina

Xilogravura nordestina

o amor é bicho traiçoeiro
ele te atrai, te distrai
te dá um tiro certeiro
arranca da paz um pedaço
no requebrar da morena
pega o sujeito no laço

nega, não aguento mais
criei coragem
vou falar com seus pais
põe aquele vestido de renda
tô sem nada no bolso
espero que você entenda

Adriano Yamamoto (Data: 22/04/2013)

Degradês

(Zumbi dos Palmares - Fonte: Wikimedia Foundations / Reprodução)

(Zumbi dos Palmares – Fonte: Wikimedia Foundations / Reprodução)

Esse canto, esse coro
De muito longe vem esse choro
Pérolas negras riscando o mar
Tambores, guias
Deuses a clamar

A escuridão da noite marcou o porto
O sol se refugiou cedo, quase morto
No toque do atabaque
Um golpe certeiro
Correntes nos pés
Navio negreiro

Sopro de vela
Mergulhos ao mar
Vento na vela
Navegar

Corpos sem alma
Fundo do mar
A noite revela
Ancorar

Nuances de melanina
Brancos tons
Meninos degradê
Ecléticos sons
Raízes de um país de origens mil
Sob o sol da Bahia, Brasil

(Adriano Yamamoto – 28/05/2013)

A espera

Sao-Jorge

São Jorge – Artista: Uchôa

menina distante no terreiro
vendo as estrelas no céu
esperando um amor verdadeiro

cachorro correndo no quintal
o peito ardendo em chamas
traço fininho de lua, sem sinal

besouro arteiro cruzando o ar
fugindo, fingindo, zunindo
se exibindo aos que não sabem voar

estrela cadente que não vem
espera seu riscar de luz
um pedido, um certo alguém

à lua faz seu apelo
você aí, São Jorge
uma mãozinha, um conselho

corra com seu cavalo branco
traga aqui quem desejo tanto
se quiser, deixe vivo o dragão
vá, enquanto vive a paixão

Adriano Yamamoto (Data: 22/04/2013)

Farol

amanhecer-dia
farol incandescente
sopro de brisa
posso sentir na mente
nuvem no céu avisa
chuva pra quem tem
esperança pra quem é
sonha com coração além
de onde pisa o pé
traço de criança
nas montanhas de Minas
brilho pra quem alcança
a delicadeza das meninas

coração pra amar
vontade pra querer
vento pra soprar
farol pra amanhecer

Adriano Yamamoto (Data: 29/04/2013)

Lógica do inverso

Fotografia: Layana Leonardo

Fotografia: Layana Leonardo

enquanto você fica aí sentado
vendo o mundo através das lentes
dos seus óculos vermelhos

o mundo gira veloz e obstinado
indiferente a quem está sentado
seguindo a lógica do inverso
singular pra quem é diverso

caótico pra quem é sistemático
gentil pra quem é antipático
sem reservas nem lugar marcado
entre, faça sem ser convidado

pegue à força, no laço
se escapar, use os dentes
arranque ao menos um pedaço

mas não gire em sentido horário
vá sempre no sentido contrário
não deixe fugir do corpo a alma
caso não se encontre, muita calma

use seus óculos vermelhos
mas arranque as lentes,
e imediatamente, se olhe no espelho

se mesmo assim não se enxergar
use um martelo, mire no acetato
bata até quebrar

Adriano Yamamoto (Data: 31/05/2013)

Universo em confusão

coracao-no-varal
representar nunca foi o seu forte
abre logo ao meio, faz um corte
faísca no chão à fio de argumento
trovoada, inundação de sentimento

memória olfativa, audição eclética
seletiva, mas que se dane a estética!
samba, balança, batuca na mesa do bar
num piscar de olhos, desce do céu ao mar

clips, caderno, caneta, sapato, cd
coleção transbordando a casa, pode crer!
universo de idéias, manias e pessoas
instruídos, deselegantes, ateus e à toas

briga, diz que se sente abandonada
pede divorcio no meio da madrugada
pela manhã acorda calma e serena
alma grande, embalagem pequena

amor que salta do mais alto prédio
temperamento sem cura nem remédio
posa de Davi enfrentando o gigante
delicadeza de mulher, fina, elegante

Adriano Yamamoto – 22/05/2013

(Dedicado à minha esposa Luciane Yamamoto)

Alma ao vento

ao-vento
Mais vale um devaneio jogado ao vento do que o mecânico pensar.
E muito mais a subversão das idéias
do que a obediência cega que anula a dúvida e reforça os muros da submissão.
Vale mais um breve momento onde a alma é livre para ser,
do que a eternidade de uma vida vazia que se vai no estalar dos dedos de uma criança.

Adriano Yamamoto (Março – 2012)

 

À seco

a seco
peço as pedras que gritem,
mandem seu recado
sem holofotes, enfeites,
nada muito requintado

peço à natureza que diga
nas folhas e nos corais
algo sobre Ti
porque o homem não pode mais

nas ruínas,
nos templos históricos
as palavras perdidas,
os ditos apostólicos

nesse mar de ritos e estágios
peço ao profeta que divida as águas
quero passar à seco, sem pedágios

com quantas pedras se faz uma crença?
com a mente atada, é possível que se vença?
com quantas mentiras se decide o que é permitido?
com quantos pecados se faz um homem perdido?

nessa manhã intenções sutis
que o criador nos perdoe
nos livre dos lobos, dos homens vis
e desse que sou, que mora dentro de mim
entregue às banalidades da vida
de egoísmo e erros sem fim

Adriano Yamamoto (Data: 01/04/2013)

Academia do absurdo

absurdo

Se telefone é combatível ou combatente
Me desculpe amigo, mas infelizmente
não posso opinar sobre essa questão
Sou formado em ufologia
com ênfase em astrologia do sertão

se papel aceita tudo
e boca fala o que quer
sou da academia do absurdo
dono de uma teoria qualquer

se CEP quer dizer cidade, estado e país
não posso afirmar, pergunte ao sr. juiz
já ouvi algo sobre endereçamento postal
mas não importa, por bem ou por mal
que ele que decida o que é justo, afinal

se papel aceita tudo
e boca fala o que quer
a academia do absurdo
tem pensador, doutor e mané

Se Jesus nasceu no Pará ou na Galiléia
Me desculpe amigo, mas não faço idéia
Sei que tourada é coisa da Espanha,
no Pará se fala brasileiro
e o povo nem hebraico arranha.

se papel aceita tudo
e boca fala o que quer
o pedantismo está à solta
digo e repito o que quiser

Entendeu, amigo?
Nem eu!

Adriano Yamamoto (Data: aproximadamente Julho de 2012)
* Inspirado num diálogo engraçadíssimo entre dois ex-colegas de trabalho.

Calango desiludido

(Imagem: Patricia Russano Cuyumjian - Fonte: Flickr)

(Imagem: Patricia Russano Cuyumjian – Fonte: Flickr)

Eita calango aventureiro!
Das estilingadas à tarde, foge ligeiro
com o sol a tostar os pés
procura no sertão, o rio, o mar, as marés
só o que come é a poeira das estradas daqui
à noite sonha com cajá, umbu, goiaba, pequi
– o que cria nessa terra seca, seu moço, é só lamento!
– os bichos magros, o povo indo embora de tanto sofrimento

Eita calango inocente!
ficou imaginando como seria o velho chico passando bem em sua frente
ouviu isso do marvado Zé que falava afirmando com toda certeza:
–  Vai passar! Vai passar, numa grande correnteza!
De tanto ser enganado, o bicho perdeu a esperança
agora só observa ao redor, guardando tudo na lembrança
a vaquinha magra, os meninos de pé no chão, a plantação miúda
já que os poderosos não se importam, à Deus do céu pede ajuda

Eita calango desiludido!
Agora não vê mais beleza nas coisas, já está tudo perdido
alegria nessa terra esquecida, vê mais nem pequena semente
fica matutando dia e noite:
– Eita bicho maldoso essa tal de gente,
promete coisa que não vai cumprir,
engana o povo simples e depois ri.
– já vi sujeito traiçoeiro nessas minhas andança
mas nenhuma espécie que faça toda essa matança!

Adriano Yamamoto (Data: 04/12/2012)

De acordo com estatísticas da ONU, o nordeste brasileiro enfrenta em 2013 a maior seca dos últimos 50 anos, com mais de 1.400 municípios afetados. A seca deste ano já é pior do que a do ano passado, também recorde. Essa realidade, no entanto, não é isolada. A previsão das Nações Unidas é de que até 2030 quase metade da população mundial estará vivendo em áreas com grande escassez de água.

http://www.onu.org.br/pior-seca-dos-ultimos-50-anos-no-nordeste-brasileiro-confirma-estatisticas-da-onu-sobre-escassez/

Amores avassaladores

Abandonada

Nos cabelos daquela mulata
um desejo escondido
em seus lábios ardentes
se perdeu João, iludido
chapéu de couro, boiadeiro
na poeira daquela estrada
se entregou por inteiro
na pele suave da negra flor
nos lábios, nas pernas
as delicias do amor

amores avassaladores
vem e vão, deixam dores
desbotam-se as cores
paixões, loucuras, amores

nos olhos do jovem rapaz
se apaixonou Maria
doce menina, pequena flor
de tanto amor, tudo faria
só as estrelas olharam
o céu aberto, se amaram
vento veio de madrugada
foi-se embora numa jangada
na beira do porto,
pétalas no chão, abandonada

amores avassaladores
vem e vão, deixam dores
desbotam-se as cores
paixões, loucuras, amores

Adriano Yamamoto (28/01/2013)

Cidade de concreto

cidade-de-concreto

a ninguém posso culpar
por ter feito as malas
e vindo parar nesse lugar
ao menos devia ter pensado
um requeijão, um kilo de andu,
meia dúzia pequi comprado

devia ter ido ao rio me despedir
coração ficou enterrado na areia
como piaba no anzol a sacudir
antes que o sol beba o rio
seque o abacateiro
e a alma aqui, morra de frio

pegarei a estrada de volta
no bolso poucas moedas
mas agora, nada disso importa
na mala velha, os sonhos guardados
tantos anos na lida e nada realizado
o mal de cada dia, a alma atormentada
o cheiro de fumaça, a rua engarrafada

no calor da juventude, me achava esperto
pé na estrada num dia de sol
multidão, carros, cidade de concreto
peço a Deus que a alma reverdeça
quero os amigos de volta
e que de tudo isso me esqueça

quero os versos de um poeta
o sol nascendo de manhãzinha
na cadência onde a alma se aquieta
nada quero o que dinheiro compre
nem casa, nem boi
apenas um lugar onde me encontre

Adriano Yamamoto (Data: 21/02/2013)

Unhas ao papel

Imagem

Pés enferrujados, corpo coberto de pó
Os dias gloriosos se foram no calor das novas invenções
Memórias, cartas, poesias
suas unhas a agredir o papel
Na cabeça, os pensamentos a perturbar
nas mãos, o parto das idéias
Após a morte, o que nos resta?
Somente as palavras

Adriano Yamamoto (Maio/2012)

Trovoada

Imagem

olha flor, o céu amanheceu nublado,
vai brotar semente, vai chover no meu roçado,
trovoada rasgou o céu, acordou o vilarejo,
pingo d’agua vem vindo, vai louvando o sertanejo,
vem maria, a chuva tá ligêra!
bota panela ali naquela gotêra,
corre, espia, vai molhar!
esvazia a lata, vai derramar!
de tanto sol, a telha trincou,
tanta água caindo, formiga se afogou.

Adriano Yamamoto – Data: 28/01/2013

Feira Moderna

passaros-gaiola-arvore

se eu nascesse pássaro na natureza
arrancaria as penas, não mostraria beleza
quebraria meu bico, me sujaria na lama
voaria pra longe, distante desse drama
quanto valem coloridas penas?
aquelas que vivem em gaiolas pequenas

se papagaio fosse, me faria mudo
de cores mórbidas, pintaria tudo
quanto mais exótico e falante
mais fácil se encontra um pagante
quanto valem aves falantes?
aquelas compradas por senhores elegantes

Se no lugar de braços tivesse afluentes
ao invés de órgãos, algas incandescentes
faria da minha superfície um escudo de aço
preservaria da vida ao menos um pedaço
quanto valem peixes num pseudo mar?
esses de vidro, usados pra enfeitar

Adiano Yamamoto – Data: 15/02/2013

* De acordo com a ONG (Organização Não Governamental) Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres, no Brasil, cerca de 38 milhões de animais são retirados de seus habitats naturais anualmente, sendo aproximadamente 12 milhões de espécimes distintas. Segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), aproximadamente 90% dos animais silvestres morrem logo depois de retirados de seu habitat natural. Os animais que apresentam comportamento amigável são os preferidos no momento da compra. Micos, papagaios, araras e peixes ornamentais são os mais vendidos. Os valores variam, quanto mais raro for o animal maior o seu preço de venda no mercado. Fonte: http://www.brasilescola.com/geografia/trafico-animais.htm

Pássaro de ferro

passaro-de-ferro

Dia e noite no galho do limoeiro
sua companheira se cansou de esperar
nessa mata não vai mais voar
agora passarinho mora no fundo do mar
o gosto verdinho da folha
o umbuzeiro ainda recordava
quando de bem alto
pássaro de ferro arremessou
passarinho que ali já não estava
depois de enfrentar tanta seca
agora é feito ilha
cercado de água do mar
vive pertinho dos peixes
onde mora Iemanjá

Adriano Yamamoto (30/11/2012 – em memória aos desaparecidos no período dos governos militares na America Latina)

* Segundo Carlos Fico, nos chamados “voos da morte”, as vítimas eram dopadas e atiradas ao mar de um avião. Eram formas de manifestação da política de extermínio: presos os pais “contaminados” pelo comunismo ou pela subversão, sua “reprodução” era supostamente interrompida dando-se seus filhos para serem criados por militares. Fonte: http://www.brasilrecente.com/2011/12/os-voos-da-morte.html

Olhar norte mineiro

seca

(Autor desconhecido)

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos nublados
Céu sem nuvens, um ar de morte
Olhos de quem sofre duras penas
De quem enterra na terra seca
A esperança de uma gota apenas

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos escuros
Um povo jogado à própria sorte
Que já nasce e cresce em apuros
Que coice de mula cedo ensina
Lata d’agua na cabeça, dura sina

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos indiferentes
Que seca é quem mata gado de corte
Não por esporte, mas por dias quentes
O marrom da terra grudou na sua retina
Morte de planta, nem óbito se assina

Adriano Yamamoto – 10/05/2013

* A Região Norte de Minas Gerais enfrenta uma das piores secas de sua história. Mais de 120 municípios já decretaram situação de emergência e, de acordo com lideranças locais, os prejuízos causados nos últimos três anos pelo problema giram na casa dos R$ 500 milhões. Fonte em 26/07/2013 http://www.itatiaia.com.br/noticia/norte-de-minas-gerais-enfrenta-uma-das-piores-secas-da-historia

Mais Simples

formiga_bolha

agora que tenho o mundo em minhas mãos
longe é palavra estranha à imaginação
vejo bem além das montanhas das gerais
mas meu coração quer mais, muito mais

agora, sinto que minto
quando pinto um quadro que não gosto
mas mostro
vejo que o que desejo é mais simples
mais próximo do que costumo olhar

longe é onde não quero estar
veloz é como não quero fazer
profundo é como quero mergulhar
bem fundo, é como tem que ser

quase sempre sonho que durmo
respiro veloz, me acostumo
passa o ponto, quero parar
dou sinal, mas não dá, não dá

Adriano Yamamoto (Data: 30/04/2013)

Afonso Pena com Bahia

Imagem

Acorda flor,
sai cá fora na janela
vem ver o sol
traço de aquarela
é feira na Afonso Pena
olha lá o Rauzito
tira foto, acena

na barraca do Lindorico
quadro de congado, folia de reis
veja bem companheiro!
lá vem o Lula outra vez
pega morena, uma mensagem do buda
a vida tá difícil, quem sabe ajuda

Vander Lee na barraca do chapéu
som na caixa, Alceu, Cartola, Noel
barraca de tropeiro, pamonha, mingau
fígado com jiló? só no mercador central
doce de leite, espetinho pra comer
o Dadá Maravilha! Cadê, cadê?

é feira no domingo,
sai cá fora Maria
na Afonso Pena
na esquina com Bahia

Adriano Yamamoto (Data: 25/02/2013 – Feira que acontece aos domingos em Belo Horizonte/MG. Começa na esquina da Rua da Bahia com Afonso Pena)

Passarinho cantador

À tarde passa por aqui
um passarinho cantador
O danado canta de tudo
saudade, tristeza, amor
Bicho vistoso aqui de Minas
Canta alegre no mercado,
nas casas e esquinas

O passarinho cantador
não se deixa intimidar
Canta sincero, com amor
a melodia popular
Voa sempre nessa trilha
mora no alto da serra
num tal bazar maravilha

Adriano Yamamoto (24/07/2013 – Feito em homenagem aos 25 anos do Bazar maravilha. Rádio Inconfidência. Lido no programa de aniversário)

Bazar

Maria, olha o Bazar
que maravilha, são ondas no ar
gotas de som regional
molha os corações, é nacional
clássicos, anônimos, esquecidos
é roda de viola entre amigos
nesse dias de seca musical
ouvi um zunido, um sinal

Adriano Yamamoto (26/04/2013 – feito para o programa Bazar Maravilha – Inconfidência FM. Lido pelo Tutti no programa do mesmo dia)

Rosa de Alice

Rosa de pano vermelho
Rosa desenhada de giz
Rosa no espelho
Rosa como se quis

Rosa do nascimento
Rosa dos santos
Rosa no esquecimento
Rosa dos encantos

Rosa dos ventos
Rosa de Hiroshima
Rosa dos inventos
Rosa que se aproxima

Rosa da Bahia
Rosa de Alice
Rosa que dizia
Rosalice

Adriano Yamamoto (Data: 02/05/2013 – para minha amiga Rosalice Sampaio)

o, a, os, as

A serpente de luzes e faróis
a borracha grelhando no asfalto
as vitrines, pessoas fisgadas em anzóis
as árvores sozinhas na paisagem
as caixas de cimento e vidro
os pássaros assoviam numa velha abordagem

os olhares rasos no elevador
a fúria do relógio veloz
as palavras frias sem sabor
a cidade de sentido criado
o céu de telha cinza breu
o aroma do amor futilizado

o buquê de árvores pra respirar
as pessoas enlatadas ao redor
o transporte público para navegar
o homem que espalha raízes
as raízes que buscam água
a galeria de pessoas felizes

os fragmentos de plástico com crédito
os sentimentos cozidos à vapor
o vale a pena ver de novo inédito
a engrenagem que não para de girar
a ferrugem dos neurônios ociosos
os meus dias que vão no ar

Adriano Yamamoto (26/02/2013)