Partida

(Fotografia - Comissão Nacional da Verdade)

(Fotografia – Comissão Nacional da Verdade)

Quem partiu a passos largos
E não viu o dia raiar
Sentiu no peito
O choro apertado

Do lado esquerdo
A doce companheira
Numa noite triste
Numa sexta feira

Sob o fio da navalha
As forças já te falham
Hoje vi tuas fotos nos jornais
E ninguém mais te viu

E quem partiu sem saber
Sem teus olhos rever
No intervalo da novela
Vi sua foto na TV
Só assim pra saber
Alguma notícia sua

Adriano Yamamoto
* Dedicado aos que lutaram bravamente contra os 21 anos de ditadura militar no Brasil (1964-1985)

Moinho

(Imagem: Mãos livres - Daniel Zanini - Fonte: Flickr)

(Imagem: Mãos livres – Daniel Zanini – Fonte: Flickr)

Roda, acorda, torna a girar
Incansável moinho
Ingrata água, se deita no mar
Papel de parede noturno
Onde se penduram a lua
As estrelas e até saturno
Enxadas que marcam o chão
Esporas que ferem a pele
Os frutos que sempre se vão
Arrancaram da mão a palma
Tudo escorre, sempre corre
Hoje acordei e não vi minha alma
Mas calma, amanhã, tudo roda
Acorda e torna a girar
Vou derrubar o céu na madrugada
Quero ver desabar os astros
A lua se sustentar numa jangada

O Samba Daqueles Dias

(Imagem: Autor desconhecido - Fonte: Google Imagens)

(Imagem: Autor desconhecido – Fonte: Google Imagens)

Mulher naqueles dias
Arruma tumulto, chora
Acha defeito em tudo
Fica arredia e não demora
Tira o sujeito do sério
Fecha a cara, não dá bola

Na hora da novela
Imagina a mau criação
Não há mocinho que escape
Nem atriz de plantão
Que seja bonita o bastante
Fica brava, desliga a televisão

Se esqueço, é descaso
Desconfia, se dou presente
Discute a relação
Reclama e constantemente
Arruma as malas
Me esculacha e nem sente

Se ela estiver naqueles dias
Não procure entender
Não há lei que condene
Pergunte ao juiz, você vai ver
E se ela te acusar
Não ouse se defender

Umbigo

(Imagem: Expedição Quilombo Brejo dos Crioulos (MG) - Fonte: Flickr)

(Imagem: Expedição Quilombo Brejo dos Crioulos (MG) – Fonte: Flickr)

Quando uma nova vida inicia
Um costume lá do norte já dizia
Umbigo se enterra na cancela
Perto daquela cerca amarela
Na fazenda de nhô Joaquim
Pra trazer bonança sem fim

Crença de mulher rezadeira
Não se pode duvidar
Esperança da sorte derradeira
Desde novo ouvi falar

O povo lá do norte de minas
A toda mulher se ensina
Menino pra ser fazendeiro
Ter boiada no terreiro
Umbigo se enterra logo ali
No curral, depois do pé de pequi

Menino homem não tem medo
Deixa o dia clarear
Mão na enxada desde cedo
Até a vida melhorar

(Adriano Yamamoto – Data: 27/06/2013)
* Um costume dos mais antigos no norte de Minas Gerais diz para que um menino ser um grande fazendeiro na vida adulta ou para que uma menina se casar com um fazendeiro rico,
devia-se enterrar o umbigo no terreno de uma fazenda.

Um riacho, um machado

Um riacho, um machado

(Fotografia: André Salerno – Site de origem: http://www.Flickr.com)

Ê mané, qualquer dia
Um dia qualquer
Junto os meninos e a mulher
Volto pro riacho
Vô no rumo do norte
Largo esse diacho de vida
Com um pouco de sorte
Pego forte na lida
Duas telhas de amianto
Um bocado de tijolo
Faço minha casa, meu manto
Sem encanto, sem sonho
Largo esse desejo medonho
De ganhar a vida na cidade
Encaro a verdade de frente
Vô pra minha gente
Que de tanto sol
Nem sente mais

(Poema dedicado à cidade de Riacho dos Machados, situada ao Norte de Minas Gerais. Postado originalmente no blog http://penseforadacaixa.com)

Delírios sextaneses

(Fotografia: Gabriela Sakamoto - Balões - Fonte: Flickr)

(Fotografia: Gabriela Sakamoto – Balões – Fonte: Flickr)

Pela manhã
Abri as mãos e deixei voar
As mãos, a mente
Os dedos pendurados no ar
Querem sempre me invadir em bando
Digo sempre, mas vez em quando
Num quarto, numa sala
Numa dose pra me afogar
Umas gotas de realidade
Pra vida me devorar
Bicho feroz
Que morde a carne, deixa marca
Cospe os restos e então descarta
As palavras vagam perdidas nas ruas
Sempre tão explícitas, seminuas
Se oferecendo a qualquer que passe
Que qualquer limite ultrapasse

Adriano Yamamoto (Data: 12/04/2013)

Menino azarado

crianças-empinando-pipa

Corre menino
Corre pelas ruas de terra
Porque a Terra
Do homem ainda ha de se fartar

Mergulha
Mergulha no rio
Porque o rio,
Nem o de Janeiro ha de sobrar

Pobre menino
Já nasceu com tudo por se acabar
Mas isso tudo
Não acontece só por azar
Pergunte a árvore
Pergunte ao ar

Adriano Yamamoto (09/11/2012)

Flor do riacho

(J. Borges)

Flor do riacho
Água de rio vem banhar
Não tem bicho, nem tem macho
Que arranca ela de lá

Não conhece riqueza
Flor é simples de se vê
E só brilho, só beleza
Não tem laço de buquê

Raio de sol já judiou
Bicho homem veio olhar
Pé de passarinho só pisou
Flor só faz desabrochar

Riacho foi embora
Chuva não passou por lá
Sumiu sertão a fora
Desiludido a caminhar

Grilo, seca enfrentou
Dia e noite a cantar
Canto não adiantou
Flor no chão a definhar

Riozinho volta aqui!
Flor não pára de clamar
Não tem chuva pra cair
Não tem água pra molhar

Rio voltou correndo
Viu o vento a sussurrar
Flor tava morrendo
Não podia acreditar

Chorou arrependido
Fez promessa de ficar
Ouviu flor o pedido
Voltou a respirar

Água de rio
Pôs Deus nesse lugar
Sol que queima sem pavio
Manda chuva pra molhar

Adriano Yamamoto

 

Dissonante

cranio
Risco enigmas no papel
Um traço, um laço
Pequena vogal, um chapéu

Labirinto inconstante
Me desespero, espero
Estranha consoante

Soa nas entranhas
Tão dissonante
Com sílabas me arranhas

Seus significados aparentes
Não há quem decifre
O mapa da sua mente

Entre pontos e acentos
Tantos contrapontos
Vencido me assento

Tantos significados
Por favor, pare a frase
Quero uma paráfrase
Com ditos explicados

Traga-me letras picantes
Tostadas na brasa
Alguém que encante
Decole sem asas

Adriano Yamamot (Data: 12/09/2013)

Estação de todo dia

(Fotografia: Diógenes)

(Fotografia: Diógenes)

Enquanto dorme o poeta
Que há pouco se despediu da lua
Canta o galo
Pra quem tem calo na mão
Se aperta logo cedo
Na estação de todo dia

Deste lado da cidade
A noite é breve
Pra quem muito deve
E cansado de mais um dia
Recebe feliz
A chegada de mais uma cria

Na cidade, um destilado
Pra lembrar do passado
E aliviar a lembrança
O filho que deixou dormindo
Maria que não se cansa
Se prepara pra mais um dia

Adriano Yamamoto (Data: 24/10/2013)

* postado originalmente no Pense Fora da Caixa.  http://penseforadacaixa.com/estacao-de-todo-dia/

Sonho Molhado

(Fotografia: Fabiano Lopes)

(Fotografia: Fabiano Lopes)

O menino olhou pro céu!
Viu a chuva caindo!
Era sonho…
Mania de vê água até dormindo
1Represa que tirou o povo do vilarejo
Gente que tentava a sorte ali, o sertanejo
Num lugar de povo simples e pele queimada
Água não sobra nem pra ver plantação molhada
Nosso sertão mineiro de tanto calor
– Abre a torneira 2Hermínio! vê se a água voltou…
Barrajona que tinha água até transbordar
Derramava dentro do rio pros muleques nadar
Alforria de piaba era a represa atravessar
Passava por cima da ribanceira até no rio chegar
Nadava ligeiro descendo 4rio Gorutuba abaixo
Água branca de sabão das 5lavadeiras no riacho
Desviava no caminho de sapo, cobra e taboa
Fugia do 6gorutubano a pescar em sua canoa
Nessa terra, antes de nuvem carregada chegar
O sol na travessia do norte mineiro vem dela judiá

(Adriano Yamamoto – 04/01/2013)

Este poema é dedicado à cidade de Janaúba, que apesar que não ser o meu local de nascimento é a cidade que abrigou minha infância e adolescência e ao povo gorutubano, povo simples, de uma riqueza cultural incrível. Segundo Filho(2008), é um comunidade formada por quilombolas que vive no vale do Gorutuba desde o século XVII, vitimada por um brutal processo de expropriação territorial e de direitos deflagrados no século XX, mais precisamente nos anos 50, e intensificado com a chegada da SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, a partir da década de 70.

1  Segundo Filho(2008), a privatização das águas do rio Gorutuba, corresponde à construção da Barragem do Bico da Pedra, na década de 1970, e a utilização dos recursos hídricos locais predominantemente na fruticultura irrigada para fins de exportação, deixando as comunidades sem acesso à água rio abaixo.

 2 (in memorian) Meu avô Hermínio Alves dos Santos. Natural do Rio Grande do Norte. Viveu até os seus cem anos em Janaúba/MG

 4 Nasce no município de Francisco Sá (Minas Gerais) e percorre o município de Janaúba, banhando a cidade no sentido sul-norte. Faz divisa com os municípios de Riacho dos MachadosPorteirinha e Nova Porteirinha à leste.

 5 Lavadeiras que até hoje ganham o sustento lavando roupas para outras famílias às margens do rios Gorutuba e Copo Sujo.

 6 Gorutubano é relativo a quem nasceu às margens do Rio Gorutuba, mas, historicamente, remonta aos primeiros moradores da cidade, um povo negro, que veio fugido do sul da Bahia e, bem ali, no Vale do Gorutuba, construiu suas “taperas” e suas famílias, muitas dessas, surgidas do casamento com índios Tapuias.

 

Fontes:

Filho, Aderval Costa – Os Gurutubanos: territorialização, produção e sociabilidade em um quilombo do centro norte mineiro.  Disponível em http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/1509/1/2008_AdervalCostaFilho.pdf?origin=publicationDetail

http://www.camarajanauba.mg.gov.br/pagina.php?conteudo=VZlSXRlVOFmYGpEWPdFdXVWRWZVVB1TP

http://gorutubanos.wix.com/site#!gorutubanos/c22j5

Precária lente

midia-e-crise

(Autor desconhecido)

Lá no fundo
Ainda restam histórias
Que não vejo na novela
Desligo a TV e sem ela
Surgem novas formas
Outro mundo a conhecer

Pela precária lente
Que desfoca, embaça,
Embaraça, tão ausente
Não quero mais notícias
Quero ver pra crer
Tocar, sentir
Cara a cara conhecer

Adriano Yamamoto (Data: 30/08/2013)

Mala Velha

mala-velha
trago na bagagem
um coração cheio de saudade
nessa longa viagem
sei, não tenho mais idade
mas papagaio no céu
corta a alma feito cerol
vento que levou meu chapéu
piaba que arrastou meu anzol

água da bica
leva folha e capim
alegria não se explica
mas quero, quero sim

trago da viagem
boneca de pano e pião
brincadeira de roda
gira, gira de pé no chão
roliman ladeira a baixo
mergulho de rio, de riacho

cor de cobra coral
canto de passarinho
pé de manga no quintal
raio de sol bem cedinho

Adriano Yamamoto – 29/04/2013

O, a, os, as

transito_luzesA serpente de luzes e faróis
A borracha grelhando no asfalto
As vitrines, pessoas fisgadas em anzóis
As árvores sozinhas na paisagem
As caixas de cimento e vidro
Os pássaros assoviam numa velha abordagem

Os olhares rasos no elevador
A fúria do relógio veloz
As palavras frias sem sabor
A cidade de sentido criado
O céu de telha cinza breu
O aroma do amor futilizado

O buquê de árvores pra respirar
As pessoas enlatadas ao redor
O transporte público para navegar
O homem que espalha raízes
As raízes que buscam água
A galeria de pessoas felizes

Os fragmentos de plástico com crédito
Os sentimentos cozidos à vapor
O vale a pena ver de novo inédito
A engrenagem que não para de girar
A ferrugem dos neurônios ociosos
Os meus dias que vão no ar

Adriano Yamamoto (Data: 26/02/2013)

Águas de Maria

(Fotografia de Laís Schulz)

(Fotografia de Laís Schulz)

Sobre a roseira no cantinho da praça
correm as águas de Maria
rios que se afastam no tempo
no silencio lento, à luz do dia

a correnteza da vida leva sempre um pedaço
roda de carro de boi, eterno compasso
os rios deságuam sempre num lugar comum
os cardumes se reencontram todos, um a um

deixe que o sol vem nascer o dia
canta Maria! os rios correm pro mar
deixe estar, primavera anuncia

Adriano Yamamoto (Data: 22/05/2013 – para Maria Elisa Xavier)

Prumo

prumo-folhas

é nessa hora que vida vem cobrar
sem patente ou estirpe, sem privilégios a dar
é onde se encontram todos os visitantes
sem classe, mendigos, anônimos e importantes
o inevitável destino, o fim de animais e humanos
paulistas, belo horizontinos, cariocas e baianos
o fim da linha, passagem para o além, ceticismo de ateu
dançou o agiota, o crediário, o que se emprestou ou vendeu

é nessa hora que vida vem cobrar
por gentileza, sorte ou mero azar
o duro ou quem tudo na vida conquistou
quem por força maior, menor, a rua atravessou
o espetáculo deste palco tem sempre hora pra acabar
as cortinas se fecham, último episódio a recordar
o dia derradeiro, nem o empresário, nem o pedinte
o último suspiro, será no dia seguinte?

é nessa hora que o fôlego vem faltar
na saúde pública, na hora de se aposentar
todos se igualam pela limitação da existência
nossa vida frágil atropelada pela violência
morte súbita, matada ou morrida, passional
bala perdida, tiroteio, avançou o sinal
o bom cidadão, o inocente, o culpado, o criminoso
o dono da padaria, o motorista, o religioso

Adriano Yamamoto (Data: 08/01/2013)

Ausência

retrato-preto-branco
Com areia,
logo se ergue
um redemoinho no quintal
e tudo que ao vento segue
Mas sossegue, não faz mal
o fio que tece a razão
sufoca um amor irreal

Rói aos poucos, faminta
Mesmo que minta
e não sinta mais
Sem sinais, pressinta
o meu olhar, nunca mais

A tua ausência arde
Por uma foto antiga
o coração insensato bate
e não há quem diga
nem linha que arremate
Se debate sem medida

Adriano Yamamoto (2013)

Sociedade dos inventos

engrenagem
No princípio, tudo era sem roda
sem movimento, fadado ao invento
lâmpadas, construções, teorias
projetos, idéias ao relento

ao nascer do sol, logo cedo
bandos formados, mutirão
átomos, plástico, levedo
tudo misturado, grande explosão

Um belo dia, você acorda
até discorda, mas se associa
compra geladeira, roupas da moda
muitos cavalos, importado na rodovia

uma avalanche morro abaixo
comercializando tudo pela frente
arte, letra, peixe, riacho
até remédio pra ficar contente

Desligo a TV, aperto o interruptor
Meu Deus! Acaba de amanhecer
Me olho no espelho, que horror!
sigo pro trabalho, volto ao anoitecer

cruzo a cidade, entro na empresa
Sou insubstituível, tenho certeza
automatizaram meu trabalho, que estranho…
volto pra casa, leio o jornal, tomo um banho

No outro dia, faço tudo novamente
acordo, como um pão amarrotado
pego o celular, escova de dente
piso fundo, estou atrasado

em frente ao trabalho, meu Deus!
um aviso em letras garrafais
De Gênesis ao livro de São Mateus
nunca vi palavras tais

Dizia assim:
“revisando nossas planilhas de custo
analisamos seu salário, que susto!
Percebemos através de uma nova tendência
Teremos mais resultados com a sua ausência”

Volto pra casa desesperado
atravesso a rua devagar
tomo algo, fico anestesiado
procuro meu espaço,
não tenho mais lugar

Adriano Yamamoto (Data: 04/07/2013)

Traiçoeiro

Xilogravura-Nordestina

Xilogravura nordestina

o amor é bicho traiçoeiro
ele te atrai, te distrai
te dá um tiro certeiro
arranca da paz um pedaço
no requebrar da morena
pega o sujeito no laço

nega, não aguento mais
criei coragem
vou falar com seus pais
põe aquele vestido de renda
tô sem nada no bolso
espero que você entenda

Adriano Yamamoto (Data: 22/04/2013)

A espera

Sao-Jorge

São Jorge – Artista: Uchôa

menina distante no terreiro
vendo as estrelas no céu
esperando um amor verdadeiro

cachorro correndo no quintal
o peito ardendo em chamas
traço fininho de lua, sem sinal

besouro arteiro cruzando o ar
fugindo, fingindo, zunindo
se exibindo aos que não sabem voar

estrela cadente que não vem
espera seu riscar de luz
um pedido, um certo alguém

à lua faz seu apelo
você aí, São Jorge
uma mãozinha, um conselho

corra com seu cavalo branco
traga aqui quem desejo tanto
se quiser, deixe vivo o dragão
vá, enquanto vive a paixão

Adriano Yamamoto (Data: 22/04/2013)

Farol

amanhecer-dia
farol incandescente
sopro de brisa
posso sentir na mente
nuvem no céu avisa
chuva pra quem tem
esperança pra quem é
sonha com coração além
de onde pisa o pé
traço de criança
nas montanhas de Minas
brilho pra quem alcança
a delicadeza das meninas

coração pra amar
vontade pra querer
vento pra soprar
farol pra amanhecer

Adriano Yamamoto (Data: 29/04/2013)

Lógica do inverso

Fotografia: Layana Leonardo

Fotografia: Layana Leonardo

enquanto você fica aí sentado
vendo o mundo através das lentes
dos seus óculos vermelhos

o mundo gira veloz e obstinado
indiferente a quem está sentado
seguindo a lógica do inverso
singular pra quem é diverso

caótico pra quem é sistemático
gentil pra quem é antipático
sem reservas nem lugar marcado
entre, faça sem ser convidado

pegue à força, no laço
se escapar, use os dentes
arranque ao menos um pedaço

mas não gire em sentido horário
vá sempre no sentido contrário
não deixe fugir do corpo a alma
caso não se encontre, muita calma

use seus óculos vermelhos
mas arranque as lentes,
e imediatamente, se olhe no espelho

se mesmo assim não se enxergar
use um martelo, mire no acetato
bata até quebrar

Adriano Yamamoto (Data: 31/05/2013)

Universo em confusão

coracao-no-varal
representar nunca foi o seu forte
abre logo ao meio, faz um corte
faísca no chão à fio de argumento
trovoada, inundação de sentimento

memória olfativa, audição eclética
seletiva, mas que se dane a estética!
samba, balança, batuca na mesa do bar
num piscar de olhos, desce do céu ao mar

clips, caderno, caneta, sapato, cd
coleção transbordando a casa, pode crer!
universo de idéias, manias e pessoas
instruídos, deselegantes, ateus e à toas

briga, diz que se sente abandonada
pede divorcio no meio da madrugada
pela manhã acorda calma e serena
alma grande, embalagem pequena

amor que salta do mais alto prédio
temperamento sem cura nem remédio
posa de Davi enfrentando o gigante
delicadeza de mulher, fina, elegante

Adriano Yamamoto – 22/05/2013

(Dedicado à minha esposa Luciane Yamamoto)

Alma ao vento

ao-vento
Mais vale um devaneio jogado ao vento do que o mecânico pensar.
E muito mais a subversão das idéias
do que a obediência cega que anula a dúvida e reforça os muros da submissão.
Vale mais um breve momento onde a alma é livre para ser,
do que a eternidade de uma vida vazia que se vai no estalar dos dedos de uma criança.

Adriano Yamamoto (Março – 2012)

 

À seco

a seco
peço as pedras que gritem,
mandem seu recado
sem holofotes, enfeites,
nada muito requintado

peço à natureza que diga
nas folhas e nos corais
algo sobre Ti
porque o homem não pode mais

nas ruínas,
nos templos históricos
as palavras perdidas,
os ditos apostólicos

nesse mar de ritos e estágios
peço ao profeta que divida as águas
quero passar à seco, sem pedágios

com quantas pedras se faz uma crença?
com a mente atada, é possível que se vença?
com quantas mentiras se decide o que é permitido?
com quantos pecados se faz um homem perdido?

nessa manhã intenções sutis
que o criador nos perdoe
nos livre dos lobos, dos homens vis
e desse que sou, que mora dentro de mim
entregue às banalidades da vida
de egoísmo e erros sem fim

Adriano Yamamoto (Data: 01/04/2013)

Academia do absurdo

absurdo

Se telefone é combatível ou combatente
Me desculpe amigo, mas infelizmente
não posso opinar sobre essa questão
Sou formado em ufologia
com ênfase em astrologia do sertão

se papel aceita tudo
e boca fala o que quer
sou da academia do absurdo
dono de uma teoria qualquer

se CEP quer dizer cidade, estado e país
não posso afirmar, pergunte ao sr. juiz
já ouvi algo sobre endereçamento postal
mas não importa, por bem ou por mal
que ele que decida o que é justo, afinal

se papel aceita tudo
e boca fala o que quer
a academia do absurdo
tem pensador, doutor e mané

Se Jesus nasceu no Pará ou na Galiléia
Me desculpe amigo, mas não faço idéia
Sei que tourada é coisa da Espanha,
no Pará se fala brasileiro
e o povo nem hebraico arranha.

se papel aceita tudo
e boca fala o que quer
o pedantismo está à solta
digo e repito o que quiser

Entendeu, amigo?
Nem eu!

Adriano Yamamoto (Data: aproximadamente Julho de 2012)
* Inspirado num diálogo engraçadíssimo entre dois ex-colegas de trabalho.

Amores avassaladores

Abandonada

Nos cabelos daquela mulata
um desejo escondido
em seus lábios ardentes
se perdeu João, iludido
chapéu de couro, boiadeiro
na poeira daquela estrada
se entregou por inteiro
na pele suave da negra flor
nos lábios, nas pernas
as delicias do amor

amores avassaladores
vem e vão, deixam dores
desbotam-se as cores
paixões, loucuras, amores

nos olhos do jovem rapaz
se apaixonou Maria
doce menina, pequena flor
de tanto amor, tudo faria
só as estrelas olharam
o céu aberto, se amaram
vento veio de madrugada
foi-se embora numa jangada
na beira do porto,
pétalas no chão, abandonada

amores avassaladores
vem e vão, deixam dores
desbotam-se as cores
paixões, loucuras, amores

Adriano Yamamoto (28/01/2013)

Cidade de concreto

cidade-de-concreto

a ninguém posso culpar
por ter feito as malas
e vindo parar nesse lugar
ao menos devia ter pensado
um requeijão, um kilo de andu,
meia dúzia pequi comprado

devia ter ido ao rio me despedir
coração ficou enterrado na areia
como piaba no anzol a sacudir
antes que o sol beba o rio
seque o abacateiro
e a alma aqui, morra de frio

pegarei a estrada de volta
no bolso poucas moedas
mas agora, nada disso importa
na mala velha, os sonhos guardados
tantos anos na lida e nada realizado
o mal de cada dia, a alma atormentada
o cheiro de fumaça, a rua engarrafada

no calor da juventude, me achava esperto
pé na estrada num dia de sol
multidão, carros, cidade de concreto
peço a Deus que a alma reverdeça
quero os amigos de volta
e que de tudo isso me esqueça

quero os versos de um poeta
o sol nascendo de manhãzinha
na cadência onde a alma se aquieta
nada quero o que dinheiro compre
nem casa, nem boi
apenas um lugar onde me encontre

Adriano Yamamoto (Data: 21/02/2013)

Unhas ao papel

Imagem

Pés enferrujados, corpo coberto de pó
Os dias gloriosos se foram no calor das novas invenções
Memórias, cartas, poesias
suas unhas a agredir o papel
Na cabeça, os pensamentos a perturbar
nas mãos, o parto das idéias
Após a morte, o que nos resta?
Somente as palavras

Adriano Yamamoto (Maio/2012)

Trovoada

Imagem

olha flor, o céu amanheceu nublado,
vai brotar semente, vai chover no meu roçado,
trovoada rasgou o céu, acordou o vilarejo,
pingo d’agua vem vindo, vai louvando o sertanejo,
vem maria, a chuva tá ligêra!
bota panela ali naquela gotêra,
corre, espia, vai molhar!
esvazia a lata, vai derramar!
de tanto sol, a telha trincou,
tanta água caindo, formiga se afogou.

Adriano Yamamoto – Data: 28/01/2013

Feira Moderna

passaros-gaiola-arvore

se eu nascesse pássaro na natureza
arrancaria as penas, não mostraria beleza
quebraria meu bico, me sujaria na lama
voaria pra longe, distante desse drama
quanto valem coloridas penas?
aquelas que vivem em gaiolas pequenas

se papagaio fosse, me faria mudo
de cores mórbidas, pintaria tudo
quanto mais exótico e falante
mais fácil se encontra um pagante
quanto valem aves falantes?
aquelas compradas por senhores elegantes

Se no lugar de braços tivesse afluentes
ao invés de órgãos, algas incandescentes
faria da minha superfície um escudo de aço
preservaria da vida ao menos um pedaço
quanto valem peixes num pseudo mar?
esses de vidro, usados pra enfeitar

Adiano Yamamoto – Data: 15/02/2013

* De acordo com a ONG (Organização Não Governamental) Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres, no Brasil, cerca de 38 milhões de animais são retirados de seus habitats naturais anualmente, sendo aproximadamente 12 milhões de espécimes distintas. Segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), aproximadamente 90% dos animais silvestres morrem logo depois de retirados de seu habitat natural. Os animais que apresentam comportamento amigável são os preferidos no momento da compra. Micos, papagaios, araras e peixes ornamentais são os mais vendidos. Os valores variam, quanto mais raro for o animal maior o seu preço de venda no mercado. Fonte: http://www.brasilescola.com/geografia/trafico-animais.htm

Pássaro de ferro

passaro-de-ferro

Dia e noite no galho do limoeiro
sua companheira se cansou de esperar
nessa mata não vai mais voar
agora passarinho mora no fundo do mar
o gosto verdinho da folha
o umbuzeiro ainda recordava
quando de bem alto
pássaro de ferro arremessou
passarinho que ali já não estava
depois de enfrentar tanta seca
agora é feito ilha
cercado de água do mar
vive pertinho dos peixes
onde mora Iemanjá

Adriano Yamamoto (30/11/2012 – em memória aos desaparecidos no período dos governos militares na America Latina)

* Segundo Carlos Fico, nos chamados “voos da morte”, as vítimas eram dopadas e atiradas ao mar de um avião. Eram formas de manifestação da política de extermínio: presos os pais “contaminados” pelo comunismo ou pela subversão, sua “reprodução” era supostamente interrompida dando-se seus filhos para serem criados por militares. Fonte: http://www.brasilrecente.com/2011/12/os-voos-da-morte.html

Olhar norte mineiro

seca

(Autor desconhecido)

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos nublados
Céu sem nuvens, um ar de morte
Olhos de quem sofre duras penas
De quem enterra na terra seca
A esperança de uma gota apenas

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos escuros
Um povo jogado à própria sorte
Que já nasce e cresce em apuros
Que coice de mula cedo ensina
Lata d’agua na cabeça, dura sina

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos indiferentes
Que seca é quem mata gado de corte
Não por esporte, mas por dias quentes
O marrom da terra grudou na sua retina
Morte de planta, nem óbito se assina

Adriano Yamamoto – 10/05/2013

* A Região Norte de Minas Gerais enfrenta uma das piores secas de sua história. Mais de 120 municípios já decretaram situação de emergência e, de acordo com lideranças locais, os prejuízos causados nos últimos três anos pelo problema giram na casa dos R$ 500 milhões. Fonte em 26/07/2013 http://www.itatiaia.com.br/noticia/norte-de-minas-gerais-enfrenta-uma-das-piores-secas-da-historia

Mais Simples

formiga_bolha

agora que tenho o mundo em minhas mãos
longe é palavra estranha à imaginação
vejo bem além das montanhas das gerais
mas meu coração quer mais, muito mais

agora, sinto que minto
quando pinto um quadro que não gosto
mas mostro
vejo que o que desejo é mais simples
mais próximo do que costumo olhar

longe é onde não quero estar
veloz é como não quero fazer
profundo é como quero mergulhar
bem fundo, é como tem que ser

quase sempre sonho que durmo
respiro veloz, me acostumo
passa o ponto, quero parar
dou sinal, mas não dá, não dá

Adriano Yamamoto (Data: 30/04/2013)

Afonso Pena com Bahia

Imagem

Acorda flor,
sai cá fora na janela
vem ver o sol
traço de aquarela
é feira na Afonso Pena
olha lá o Rauzito
tira foto, acena

na barraca do Lindorico
quadro de congado, folia de reis
veja bem companheiro!
lá vem o Lula outra vez
pega morena, uma mensagem do buda
a vida tá difícil, quem sabe ajuda

Vander Lee na barraca do chapéu
som na caixa, Alceu, Cartola, Noel
barraca de tropeiro, pamonha, mingau
fígado com jiló? só no mercador central
doce de leite, espetinho pra comer
o Dadá Maravilha! Cadê, cadê?

é feira no domingo,
sai cá fora Maria
na Afonso Pena
na esquina com Bahia

Adriano Yamamoto (Data: 25/02/2013 – Feira que acontece aos domingos em Belo Horizonte/MG. Começa na esquina da Rua da Bahia com Afonso Pena)

Passarinho cantador

À tarde passa por aqui
um passarinho cantador
O danado canta de tudo
saudade, tristeza, amor
Bicho vistoso aqui de Minas
Canta alegre no mercado,
nas casas e esquinas

O passarinho cantador
não se deixa intimidar
Canta sincero, com amor
a melodia popular
Voa sempre nessa trilha
mora no alto da serra
num tal bazar maravilha

Adriano Yamamoto (24/07/2013 – Feito em homenagem aos 25 anos do Bazar maravilha. Rádio Inconfidência. Lido no programa de aniversário)

Bazar

Maria, olha o Bazar
que maravilha, são ondas no ar
gotas de som regional
molha os corações, é nacional
clássicos, anônimos, esquecidos
é roda de viola entre amigos
nesse dias de seca musical
ouvi um zunido, um sinal

Adriano Yamamoto (26/04/2013 – feito para o programa Bazar Maravilha – Inconfidência FM. Lido pelo Tutti no programa do mesmo dia)

Rosa de Alice

Rosa de pano vermelho
Rosa desenhada de giz
Rosa no espelho
Rosa como se quis

Rosa do nascimento
Rosa dos santos
Rosa no esquecimento
Rosa dos encantos

Rosa dos ventos
Rosa de Hiroshima
Rosa dos inventos
Rosa que se aproxima

Rosa da Bahia
Rosa de Alice
Rosa que dizia
Rosalice

Adriano Yamamoto (Data: 02/05/2013 – para minha amiga Rosalice Sampaio)

o, a, os, as

A serpente de luzes e faróis
a borracha grelhando no asfalto
as vitrines, pessoas fisgadas em anzóis
as árvores sozinhas na paisagem
as caixas de cimento e vidro
os pássaros assoviam numa velha abordagem

os olhares rasos no elevador
a fúria do relógio veloz
as palavras frias sem sabor
a cidade de sentido criado
o céu de telha cinza breu
o aroma do amor futilizado

o buquê de árvores pra respirar
as pessoas enlatadas ao redor
o transporte público para navegar
o homem que espalha raízes
as raízes que buscam água
a galeria de pessoas felizes

os fragmentos de plástico com crédito
os sentimentos cozidos à vapor
o vale a pena ver de novo inédito
a engrenagem que não para de girar
a ferrugem dos neurônios ociosos
os meus dias que vão no ar

Adriano Yamamoto (26/02/2013)