Mandinga

(Fotografia: Marina Guerra - Origem: www.flickr.com)

(Fotografia: Marina Guerra – Origem: Flickr)

Nas águas do rio
Um papel com seu nome
Pra vê se some
Se a correnteza do rio
Leva pra longe
Por mandinga, por simpatia
Cada pensamento que se cria
Avalanche que me consome

Pra ver se peixe leva
Coração embrulhado em papel
Rabisco num jornal
Ilusão sentimental

Adriano Yamamoto (Data: 10/05/2013)

 

Umbigo

(Imagem: Expedição Quilombo Brejo dos Crioulos (MG) - Fonte: Flickr)

(Imagem: Expedição Quilombo Brejo dos Crioulos (MG) – Fonte: Flickr)

Quando uma nova vida inicia
Um costume lá do norte já dizia
Umbigo se enterra na cancela
Perto daquela cerca amarela
Na fazenda de nhô Joaquim
Pra trazer bonança sem fim

Crença de mulher rezadeira
Não se pode duvidar
Esperança da sorte derradeira
Desde novo ouvi falar

O povo lá do norte de minas
A toda mulher se ensina
Menino pra ser fazendeiro
Ter boiada no terreiro
Umbigo se enterra logo ali
No curral, depois do pé de pequi

Menino homem não tem medo
Deixa o dia clarear
Mão na enxada desde cedo
Até a vida melhorar

(Adriano Yamamoto – Data: 27/06/2013)
* Um costume dos mais antigos no norte de Minas Gerais diz para que um menino ser um grande fazendeiro na vida adulta ou para que uma menina se casar com um fazendeiro rico,
devia-se enterrar o umbigo no terreno de uma fazenda.

Um riacho, um machado

Um riacho, um machado

(Fotografia: André Salerno – Site de origem: http://www.Flickr.com)

Ê mané, qualquer dia
Um dia qualquer
Junto os meninos e a mulher
Volto pro riacho
Vô no rumo do norte
Largo esse diacho de vida
Com um pouco de sorte
Pego forte na lida
Duas telhas de amianto
Um bocado de tijolo
Faço minha casa, meu manto
Sem encanto, sem sonho
Largo esse desejo medonho
De ganhar a vida na cidade
Encaro a verdade de frente
Vô pra minha gente
Que de tanto sol
Nem sente mais

(Poema dedicado à cidade de Riacho dos Machados, situada ao Norte de Minas Gerais. Postado originalmente no blog http://penseforadacaixa.com)

O dragão e o velho Chico

(Autor desconhecido)

(Imagem: Autor desconhecido)

Ê norte, nordeste
Morada do dragão
Devasta feito peste
Cuspindo fogo no chão

Feroz dragão
Transforma em seca
Toda e qualquer estação

Dizem que não tarda
Velho Chico ha de chegar
Com fé, se aguarda
Dragão não sabe nadar

Seca estação
Não demora muito
Velho Chico, mata o dragão

Adriano Yamamoto (Data: 24/04/2013)

Sonho Molhado

(Fotografia: Fabiano Lopes)

(Fotografia: Fabiano Lopes)

O menino olhou pro céu!
Viu a chuva caindo!
Era sonho…
Mania de vê água até dormindo
1Represa que tirou o povo do vilarejo
Gente que tentava a sorte ali, o sertanejo
Num lugar de povo simples e pele queimada
Água não sobra nem pra ver plantação molhada
Nosso sertão mineiro de tanto calor
– Abre a torneira 2Hermínio! vê se a água voltou…
Barrajona que tinha água até transbordar
Derramava dentro do rio pros muleques nadar
Alforria de piaba era a represa atravessar
Passava por cima da ribanceira até no rio chegar
Nadava ligeiro descendo 4rio Gorutuba abaixo
Água branca de sabão das 5lavadeiras no riacho
Desviava no caminho de sapo, cobra e taboa
Fugia do 6gorutubano a pescar em sua canoa
Nessa terra, antes de nuvem carregada chegar
O sol na travessia do norte mineiro vem dela judiá

(Adriano Yamamoto – 04/01/2013)

Este poema é dedicado à cidade de Janaúba, que apesar que não ser o meu local de nascimento é a cidade que abrigou minha infância e adolescência e ao povo gorutubano, povo simples, de uma riqueza cultural incrível. Segundo Filho(2008), é um comunidade formada por quilombolas que vive no vale do Gorutuba desde o século XVII, vitimada por um brutal processo de expropriação territorial e de direitos deflagrados no século XX, mais precisamente nos anos 50, e intensificado com a chegada da SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, a partir da década de 70.

1  Segundo Filho(2008), a privatização das águas do rio Gorutuba, corresponde à construção da Barragem do Bico da Pedra, na década de 1970, e a utilização dos recursos hídricos locais predominantemente na fruticultura irrigada para fins de exportação, deixando as comunidades sem acesso à água rio abaixo.

 2 (in memorian) Meu avô Hermínio Alves dos Santos. Natural do Rio Grande do Norte. Viveu até os seus cem anos em Janaúba/MG

 4 Nasce no município de Francisco Sá (Minas Gerais) e percorre o município de Janaúba, banhando a cidade no sentido sul-norte. Faz divisa com os municípios de Riacho dos MachadosPorteirinha e Nova Porteirinha à leste.

 5 Lavadeiras que até hoje ganham o sustento lavando roupas para outras famílias às margens do rios Gorutuba e Copo Sujo.

 6 Gorutubano é relativo a quem nasceu às margens do Rio Gorutuba, mas, historicamente, remonta aos primeiros moradores da cidade, um povo negro, que veio fugido do sul da Bahia e, bem ali, no Vale do Gorutuba, construiu suas “taperas” e suas famílias, muitas dessas, surgidas do casamento com índios Tapuias.

 

Fontes:

Filho, Aderval Costa – Os Gurutubanos: territorialização, produção e sociabilidade em um quilombo do centro norte mineiro.  Disponível em http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/1509/1/2008_AdervalCostaFilho.pdf?origin=publicationDetail

http://www.camarajanauba.mg.gov.br/pagina.php?conteudo=VZlSXRlVOFmYGpEWPdFdXVWRWZVVB1TP

http://gorutubanos.wix.com/site#!gorutubanos/c22j5

Cidade de concreto

cidade-de-concreto

a ninguém posso culpar
por ter feito as malas
e vindo parar nesse lugar
ao menos devia ter pensado
um requeijão, um kilo de andu,
meia dúzia pequi comprado

devia ter ido ao rio me despedir
coração ficou enterrado na areia
como piaba no anzol a sacudir
antes que o sol beba o rio
seque o abacateiro
e a alma aqui, morra de frio

pegarei a estrada de volta
no bolso poucas moedas
mas agora, nada disso importa
na mala velha, os sonhos guardados
tantos anos na lida e nada realizado
o mal de cada dia, a alma atormentada
o cheiro de fumaça, a rua engarrafada

no calor da juventude, me achava esperto
pé na estrada num dia de sol
multidão, carros, cidade de concreto
peço a Deus que a alma reverdeça
quero os amigos de volta
e que de tudo isso me esqueça

quero os versos de um poeta
o sol nascendo de manhãzinha
na cadência onde a alma se aquieta
nada quero o que dinheiro compre
nem casa, nem boi
apenas um lugar onde me encontre

Adriano Yamamoto (Data: 21/02/2013)

Trovoada

Imagem

olha flor, o céu amanheceu nublado,
vai brotar semente, vai chover no meu roçado,
trovoada rasgou o céu, acordou o vilarejo,
pingo d’agua vem vindo, vai louvando o sertanejo,
vem maria, a chuva tá ligêra!
bota panela ali naquela gotêra,
corre, espia, vai molhar!
esvazia a lata, vai derramar!
de tanto sol, a telha trincou,
tanta água caindo, formiga se afogou.

Adriano Yamamoto – Data: 28/01/2013

Olhar norte mineiro

seca

(Autor desconhecido)

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos nublados
Céu sem nuvens, um ar de morte
Olhos de quem sofre duras penas
De quem enterra na terra seca
A esperança de uma gota apenas

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos escuros
Um povo jogado à própria sorte
Que já nasce e cresce em apuros
Que coice de mula cedo ensina
Lata d’agua na cabeça, dura sina

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos indiferentes
Que seca é quem mata gado de corte
Não por esporte, mas por dias quentes
O marrom da terra grudou na sua retina
Morte de planta, nem óbito se assina

Adriano Yamamoto – 10/05/2013

* A Região Norte de Minas Gerais enfrenta uma das piores secas de sua história. Mais de 120 municípios já decretaram situação de emergência e, de acordo com lideranças locais, os prejuízos causados nos últimos três anos pelo problema giram na casa dos R$ 500 milhões. Fonte em 26/07/2013 http://www.itatiaia.com.br/noticia/norte-de-minas-gerais-enfrenta-uma-das-piores-secas-da-historia