Umbigo

(Imagem: Expedição Quilombo Brejo dos Crioulos (MG) - Fonte: Flickr)

(Imagem: Expedição Quilombo Brejo dos Crioulos (MG) – Fonte: Flickr)

Quando uma nova vida inicia
Um costume lá do norte já dizia
Umbigo se enterra na cancela
Perto daquela cerca amarela
Na fazenda de nhô Joaquim
Pra trazer bonança sem fim

Crença de mulher rezadeira
Não se pode duvidar
Esperança da sorte derradeira
Desde novo ouvi falar

O povo lá do norte de minas
A toda mulher se ensina
Menino pra ser fazendeiro
Ter boiada no terreiro
Umbigo se enterra logo ali
No curral, depois do pé de pequi

Menino homem não tem medo
Deixa o dia clarear
Mão na enxada desde cedo
Até a vida melhorar

(Adriano Yamamoto – Data: 27/06/2013)
* Um costume dos mais antigos no norte de Minas Gerais diz para que um menino ser um grande fazendeiro na vida adulta ou para que uma menina se casar com um fazendeiro rico,
devia-se enterrar o umbigo no terreno de uma fazenda.

Desabafo de um ancião

(Fotografia: Fabiano Lopes)

(Fotografia: Fabiano Lopes)

A vida segue obstinada um rumo
Gira, desvia, não perde o prumo
Vive o moço, morre o ancião
Mas toda regra tem sua exceção

O que esperarei dessa vida?
História infeliz e sofrida
De quem cedo perdeu um neto
Num golpe de mortal desafeto

Deveria ter ido em seu lugar
Chorei, mas não pude optar
Ao Pai do céu cansei de pedir
Clamei dia e noite a repetir

É certo que há de passar
Dói tanto que adormecerá
Mas isso sempre me intriga
Ao lado a dor, fiel inimiga

Mas não sou o único sofredor
O menino Jesus, nosso senhor
Sem ouro, prata, coroa ou anel
Cedo, ainda moço, se foi pro céu

Deixou sozinha a virgem Maria
Mulher que cedo perdeu sua cria
Quando a saudade vinha, rezava
Uma estrela lá do céu acompanhava

(Adriano Yamamoto – Data: 17/06/2013 – Baseado na história do meu falecido avô, Hermínio Alves dos Santos, que mesmo sem saber decifrar os códigos do alfabeto, soube me transmitir através de suas histórias e estórias, toda a magia existente no universo da cultura oral do norte e nordeste brasileiro)

Flor do riacho

(J. Borges)

Flor do riacho
Água de rio vem banhar
Não tem bicho, nem tem macho
Que arranca ela de lá

Não conhece riqueza
Flor é simples de se vê
E só brilho, só beleza
Não tem laço de buquê

Raio de sol já judiou
Bicho homem veio olhar
Pé de passarinho só pisou
Flor só faz desabrochar

Riacho foi embora
Chuva não passou por lá
Sumiu sertão a fora
Desiludido a caminhar

Grilo, seca enfrentou
Dia e noite a cantar
Canto não adiantou
Flor no chão a definhar

Riozinho volta aqui!
Flor não pára de clamar
Não tem chuva pra cair
Não tem água pra molhar

Rio voltou correndo
Viu o vento a sussurrar
Flor tava morrendo
Não podia acreditar

Chorou arrependido
Fez promessa de ficar
Ouviu flor o pedido
Voltou a respirar

Água de rio
Pôs Deus nesse lugar
Sol que queima sem pavio
Manda chuva pra molhar

Adriano Yamamoto

 

Trovoada

Imagem

olha flor, o céu amanheceu nublado,
vai brotar semente, vai chover no meu roçado,
trovoada rasgou o céu, acordou o vilarejo,
pingo d’agua vem vindo, vai louvando o sertanejo,
vem maria, a chuva tá ligêra!
bota panela ali naquela gotêra,
corre, espia, vai molhar!
esvazia a lata, vai derramar!
de tanto sol, a telha trincou,
tanta água caindo, formiga se afogou.

Adriano Yamamoto – Data: 28/01/2013

Olhar norte mineiro

seca

(Autor desconhecido)

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos nublados
Céu sem nuvens, um ar de morte
Olhos de quem sofre duras penas
De quem enterra na terra seca
A esperança de uma gota apenas

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos escuros
Um povo jogado à própria sorte
Que já nasce e cresce em apuros
Que coice de mula cedo ensina
Lata d’agua na cabeça, dura sina

Quando você voltou do norte
Vi nos seus olhos indiferentes
Que seca é quem mata gado de corte
Não por esporte, mas por dias quentes
O marrom da terra grudou na sua retina
Morte de planta, nem óbito se assina

Adriano Yamamoto – 10/05/2013

* A Região Norte de Minas Gerais enfrenta uma das piores secas de sua história. Mais de 120 municípios já decretaram situação de emergência e, de acordo com lideranças locais, os prejuízos causados nos últimos três anos pelo problema giram na casa dos R$ 500 milhões. Fonte em 26/07/2013 http://www.itatiaia.com.br/noticia/norte-de-minas-gerais-enfrenta-uma-das-piores-secas-da-historia